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Em 1968 foi inaugurado o Cine Tupy, na Baixa dos Sapateiros, abrigando importantíssimo trabalho ambiental de sua autoria (colunas, murais e painéis de espelho). Infelizmente, esse seu trabalho foi, depois, destruído. O diretor cinematográfico Thomas Farkas produziu, inclusive, um filme intitulado PARAISO, JUAREZ, que traz importante registro desse trabalho ambiental realizado no Cine Tupy. No ano 2000, a Igreja Renascer em Cristo, destruiu painéis de sua autoria situados nos Cines Art 1 e 2 (no bairro de Politeama). Você ajuizou uma ação indenizatória em face dessa igreja evangélica, obtendo vitória no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Conte-nos um pouco sobre esse lamentável episódio envolvendo a destruição desses dois importantes trabalhos de sua autoria (no Cine Tupy e nos Cines Art 1 e 2).
O Cine Tupy foi inaugurado com um trabalho meu que considero ter sido a primeira instalação realizada na Bahia, na Cidade do Salvador. Poderia ser também considerado um trabalho “de arte ambiental” pelas suas atípicas características. A mim foi dada liberdade total para a concepção do trabalho pelo arquiteto Antônio Python, com a aquiescência do proprietário do cinema, o seu pai Francisco Python. Conceituando a Instalação como um útero contendo as pessoas, busquei transformar todos os componentes do espaço arquitetônico. Primeiro o tema. A época era de absoluta turbulência política, com a ditadura militar, perseguições políticas e muita repressão. Os estudantes brasileiros ofereciam uma aguerrida resistência. Como tema optei pela “Comunicação”, mas dei ênfase à falta de comunicação. Eliminei o mural da parede e para isso criei, com compensados, uma espécie de sinestesia com os planos recortados, superpostos e afastados verticalmente, gerando uma dinâmica visual com o movimento do perceptor, pois cada plano completava o outro, definindo a forma dos desenhos e pinturas. A primeira parte do mural, junto aos principais inventos criados para vencer grandes distâncias, foi dedicada a uma interpretação dos sentidos e da percepção humana, simbolizando a comunicação com o universo exterior. Em seguida, uma homenagem à invenção da escrita e do cinema, destacando a presença de Walter da Silveira e Guido Araújo. No meio de centenas de imagens dos comícios estudantis, homenagem a Vladimir Palmeira, líder da passeata dos mil contra a ditadura. Logo após a representação dos “Cavaleiros do Apocalipse”, de Albert Durer, coloquei a imagem do grande dedo acusatório, direcionado ao perceptor. Realizei um grande painel de espelho, com dezenas de partes sem imagens refletidas, para fragmentar a imagem do perceptor, enfatizando mais ainda a ideia de ausência de comunicação. Completando a ideia de envolvimento uterino, criei e executei um teto também com volumes superpostos, com evocações orgânicas e futurísticas. As colunas, evocando um toque de esperança, transformei em assentos com formas de um trevo de cinco pétalas. Realizado durante quatro meses, este trabalho contou com a ajuda de muitos estudantes de arte e de artistas profissionais como Francisco Liberato e Renato da Silveira.
Nos cinemas gêmeos Politeama I e II, dediquei os murais a temas da cultura Afro: Politeama I, “Nascimento de Oxumarê”, destacando Iemanjá, saindo de uma grande concha e, com o dedo, parodiando Miguel Ângelo, na Capela Sistina, gera o nascimento de Oxumarê, representado pelo arco-íris; Politeama II, com a Presença dominante do próprio Oxumarê, simbiose de homem e mulher. Todos os dois murais foram complementados com estruturas abstratas. Os murais foram realizados com relevos de madeira com pintura a óleo, fibra de vidro, e massa de cimento e barro, revestidos de tinta acrílica. A destruição destes murais foram atos de barbárie, desrespeito completo aos trabalhos de arte. Mas, também, consequência da indiferença do estado às obras de arte pública que, embora de propriedade privada, poderiam ser tombadas pelo Estado. Esta cooperação entre o poder público e o Estado asseguraria a existência de um “grande Museu de Arte Pública da Cidade”. O trabalho do Cine Tupy foi destruído por um representante da CIC, e os trabalhos dos cinemas do Politeama pela Igreja Evangélica Renascer em Cristo. O mais incompreensível é que quase todas as peças foram presas com parafusos, para facilitar a sua remoção e possível transferência, caso houvesse necessidade. No entanto, tudo foi arrebentado com violência e rapidamente, provavelmente para evitar qualquer tipo de impedimento. Com relação aos trabalhos dos cinemas do Politeama, ajuizei uma ação indenizatória através de dois notáveis juristas, os advogados Pedreira Lapa, e o especialista em direito autoral Rodrigo Moraes. Após uma defesa brilhante desses dois notáveis juristas, obtivemos vitória no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Uma admirável vitória moral que passou a ser jurisprudência para todos os artistas do Brasil.
Em 1968 foi inaugurado o Cine Tupy, na Baixa dos Sapateiros, abrigando importantíssimo trabalho ambiental de sua autoria (colunas, murais e painéis de espelho). Infelizmente, esse seu trabalho foi, depois, destruído. O diretor cinematográfico Thomas Farkas produziu, inclusive, um filme intitulado PARAISO, JUAREZ, que traz importante registro desse trabalho ambiental realizado no Cine Tupy. No ano 2000, a Igreja Renascer em Cristo, destruiu painéis de sua autoria situados nos Cines Art 1 e 2 (no bairro de Politeama). Você ajuizou uma ação indenizatória em face dessa igreja evangélica, obtendo vitória no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Conte-nos um pouco sobre esse lamentável episódio envolvendo a destruição desses dois importantes trabalhos de sua autoria (no Cine Tupy e nos Cines Art 1 e 2).
O Cine Tupy foi inaugurado com um trabalho meu que considero ter sido a primeira instalação realizada na Bahia, na Cidade do Salvador. Poderia ser também considerado um trabalho “de arte ambiental” pelas suas atípicas características. A mim foi dada liberdade total para a concepção do trabalho pelo arquiteto Antônio Python, com a aquiescência do proprietário do cinema, o seu pai Francisco Python. Conceituando a Instalação como um útero contendo as pessoas, busquei transformar todos os componentes do espaço arquitetônico. Primeiro o tema. A época era de absoluta turbulência política, com a ditadura militar, perseguições políticas e muita repressão. Os estudantes brasileiros ofereciam uma aguerrida resistência. Como tema optei pela “Comunicação”, mas dei ênfase à falta de comunicação. Eliminei o mural da parede e para isso criei, com compensados, uma espécie de sinestesia com os planos recortados, superpostos e afastados verticalmente, gerando uma dinâmica visual com o movimento do perceptor, pois cada plano completava o outro, definindo a forma dos desenhos e pinturas. A primeira parte do mural, junto aos principais inventos criados para vencer grandes distâncias, foi dedicada a uma interpretação dos sentidos e da percepção humana, simbolizando a comunicação com o universo exterior. Em seguida, uma homenagem à invenção da escrita e do cinema, destacando a presença de Walter da Silveira e Guido Araújo. No meio de centenas de imagens dos comícios estudantis, homenagem a Vladimir Palmeira, líder da passeata dos mil contra a ditadura. Logo após a representação dos “Cavaleiros do Apocalipse”, de Albert Durer, coloquei a imagem do grande dedo acusatório, direcionado ao perceptor. Realizei um grande painel de espelho, com dezenas de partes sem imagens refletidas, para fragmentar a imagem do perceptor, enfatizando mais ainda a ideia de ausência de comunicação. Completando a ideia de envolvimento uterino, criei e executei um teto também com volumes superpostos, com evocações orgânicas e futurísticas. As colunas, evocando um toque de esperança, transformei em assentos com formas de um trevo de cinco pétalas. Realizado durante quatro meses, este trabalho contou com a ajuda de muitos estudantes de arte e de artistas profissionais como Francisco Liberato e Renato da Silveira.
Nos cinemas gêmeos Politeama I e II, dediquei os murais a temas da cultura Afro: Politeama I, “Nascimento de Oxumarê”, destacando Iemanjá, saindo de uma grande concha e, com o dedo, parodiando Miguel Ângelo, na Capela Sistina, gera o nascimento de Oxumarê, representado pelo arco-íris; Politeama II, com a Presença dominante do próprio Oxumarê, simbiose de homem e mulher. Todos os dois murais foram complementados com estruturas abstratas. Os murais foram realizados com relevos de madeira com pintura a óleo, fibra de vidro, e massa de cimento e barro, revestidos de tinta acrílica. A destruição destes murais foram atos de barbárie, desrespeito completo aos trabalhos de arte. Mas, também, consequência da indiferença do estado às obras de arte pública que, embora de propriedade privada, poderiam ser tombadas pelo Estado. Esta cooperação entre o poder público e o Estado asseguraria a existência de um “grande Museu de Arte Pública da Cidade”. O trabalho do Cine Tupy foi destruído por um representante da CIC, e os trabalhos dos cinemas do Politeama pela Igreja Evangélica Renascer em Cristo. O mais incompreensível é que quase todas as peças foram presas com parafusos, para facilitar a sua remoção e possível transferência, caso houvesse necessidade. No entanto, tudo foi arrebentado com violência e rapidamente, provavelmente para evitar qualquer tipo de impedimento. Com relação aos trabalhos dos cinemas do Politeama, ajuizei uma ação indenizatória através de dois notáveis juristas, os advogados Pedreira Lapa, e o especialista em direito autoral Rodrigo Moraes. Após uma defesa brilhante desses dois notáveis juristas, obtivemos vitória no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Uma admirável vitória moral que passou a ser jurisprudência para todos os artistas do Brasil.

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